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Dor nas costas

Precisas de uma ressonância magnética para a dor nas costas? O que mostram os exames de pessoas sem dor

Os abaulamentos discais aparecem em exames de pessoas sem nenhuma dor nas costas. Lorimer Moseley explica porque é que o exame muitas vezes não conta a história, e quando é que um médico investiga mais.

1h Protocols · 25 de outubro de 2026 · 14 min de leitura

Uma mesa de cozinha de manhã com um envelope por abrir, uma chávena de chá e um molho de chaves, e um par de sapatos de caminhada junto à porta

A maioria das pessoas com dor lombar não precisa de uma ressonância magnética. As recomendações no Reino Unido e na Austrália desaconselham exames de rotina, porque os exames de pessoas sem nenhuma dor nas costas mostram muitas vezes as mesmas alterações e abaulamentos nos discos, e na maior parte da dor nas costas não se encontra uma causa única. Um exame usa-se sobretudo quando um médico precisa de excluir uma causa grave, por exemplo quando há sinais de alerta. Se o teu médico pedir um, faz.

Lorimer Moseley faz ciência clínica na área da dor. Numa palestra TEDxAdelaide em 2011, vista mais de 1,6 milhões de vezes, Moseley descreveu pessoas a entrar em serviços hospitalares onde há um modelo de coluna em cima da secretária com um disco que saiu muito para fora dela. "Se alguma vez viram um disco num cadáver, não conseguem fazer deslizar aquilo", disse Moseley ao público. "Estão imóveis, um disco não desliza. Mas é essa a nossa linguagem, e ela mexe com o nosso cérebro" (TEDxAdelaide, 10:44 a 10:52).

Moseley assina em coautoria os livros Explain Pain, sobre como funciona a dor, e recebe direitos de autor deles. Isso conta quando pesas as opiniões, por isso cada uma das que se seguem aparece ao lado da investigação. No fim vais saber o que mostram os exames de pessoas sem dor, quando é que as recomendações dizem que um exame ajuda e o que perguntar se um relatório te chegar ao email.

O que mostram os exames de pessoas sem dor nas costas?

1. As alterações nos discos são comuns em todas as idades, com ou sem dor

Em 2015, os investigadores juntaram 33 estudos de imagem com 3110 pessoas sem dor nas costas, quase todos com ressonância magnética, e estimaram a frequência de cada achado por idade (Brinjikji et al., 2015):

IdadeDegeneração discalAbaulamento discalProtrusão discal
2037%30%29%
4068%50%33%
6088%69%38%
8096%84%43%

Um disco mais escuro na ressonância, o "disco negro" (perda de sinal do disco), apareceu em mais de metade das pessoas sem dor com mais de 40 anos. Os autores concluíram que muitas destas características "são provavelmente parte do envelhecimento normal e não estão associadas à dor", e que "têm de ser interpretadas no contexto da condição clínica do doente".

Na prática, é isto. Uma pessoa de 45 anos com dor nas costas faz um exame cujo relatório indica dois abaulamentos discais e alguma degeneração. Muitas pessoas dessa idade sem dor teriam um relatório parecido. O achado pode ter ou não alguma coisa a ver com a dor desta semana, e o exame sozinho não consegue dizer qual das hipóteses é.

2. Abaixo dos 50 anos, alguns achados são um pouco mais comuns em pessoas com dor

O quadro não é igual em todas as idades. O artigo da Lancet de 2018 sobre o que é a dor lombar nota que, pelo menos em pessoas com menos de 50 anos, alguns achados de ressonância magnética, entre eles o abaulamento discal, são um pouco mais comuns em pessoas com dor lombar do que nas que não a têm (Hartvigsen et al., 2018). O mesmo artigo acrescenta que não há evidência suficiente para saber se os achados de ressonância preveem quem vai ter dor nas costas ou como vai evoluir. Por isso, um achado abaixo dos 50 anos merece ser levado a sério, e continua a ser lido em conjunto com o teu estado, não isoladamente.

3. Na maior parte da dor nas costas, não é possível apontar uma causa única

Na grande maioria das pessoas com dor lombar, escrevem os autores da Lancet, "não é possível identificar com precisão a origem nociceptiva específica" da dor (Hartvigsen et al., 2018). A Organização Mundial da Saúde aponta para cerca de 90% dos casos: nenhuma doença ou lesão consegue explicar a dor com confiança, por isso chama-se inespecífica (WHO, 2023). Isso não quer dizer que não se passe nada, nem que a dor não seja real. Quer dizer que uma imagem da coluna normalmente não consegue apontar a peça culpada.

"Um disco não desliza. Mas é essa a nossa linguagem, e ela mexe com o nosso cérebro." Lorimer Moseley

Porque é que os médicos não pedem exames para a maior parte da dor nas costas?

4. As recomendações desaconselham exames de rotina

O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), do Reino Unido, diz aos clínicos: "Não ofereçam por rotina exames de imagem num contexto não especializado a pessoas com dor lombar, com ou sem ciática." Em contextos especializados, aconselha a considerar exames de imagem "apenas se for provável que o resultado mude a abordagem" (NICE NG59, 1.1.4 e 1.1.6). A norma nacional de cuidados australiana diz o mesmo aos doentes: um raio-X, uma TAC ou uma ressonância magnética "não são necessários" na maioria dos casos, e estes exames "normalmente só são precisos quando o teu clínico precisa de excluir uma causa grave para a tua dor nas costas" (ACSQHC, 2022).

Os autores da Lancet acrescentam que "não há evidência de que os exames de imagem melhorem os resultados dos doentes" com dor lombar (Hartvigsen et al., 2018).

5. Um exame pode trazer preocupação sem trazer respostas

A norma australiana é franca sobre o porquê. A menos que haja uma boa razão, diz, os exames "dificilmente vão encontrar a razão da tua dor ou mudar a forma como é tratada". "Podem muitas vezes mostrar alterações que são normais para a tua idade", e "saber dessas alterações pode preocupar-te e levar a mais exames, consultas ou tratamentos que não ajudam a tua dor nas costas" (ACSQHC, 2022).

As palavras ficam. Num inquérito a 130 adultos com dor nas costas persistente ou recorrente, a maioria descreveu as costas como algo partido, como uma máquina, e muitos viam isso como permanente; 116 deles (89%) disseram ter aprendido o que sabiam com profissionais de saúde (Setchell et al., 2017). Se te disseram que a tua coluna está "gasta" ou que um disco "saiu", ouviste isso de pessoas em quem confiavas, e não há mal nenhum em perguntar o que essas palavras querem dizer para ti.

6. Quando é que um médico investiga mais

Os exames têm uma função clara: procurar uma causa grave quando o quadro o pede. As causas graves de dor nas costas são raras. Mais de 95% dos casos de dor lombar não têm uma causa subjacente grave (ACSQHC, 2022). Se algum dos sinais abaixo se aplicar, pede para seres observado.

Procura ajuda médica imediatamente se:

  • houve alterações na bexiga ou no intestino: dificuldade em urinar, ou perdas de urina ou fezes sem querer;
  • perdeste sensibilidade à volta dos genitais ou do rabo, ou sentes o sexo diferente;
  • sentes as duas pernas fracas, dormentes ou com formigueiro, ou não consegues andar por causa da dor;
  • a dor começou depois de uma queda grave, de um acidente ou de uma pancada nas costas;
  • tens dor no peito ou dificuldade em respirar ao mesmo tempo, ou a dor surgiu de repente e é muito pior do que tudo o que já tiveste, ou está a piorar depressa.

Consulta primeiro um médico se:

  • tens febre, ou te sentes quente, com arrepios ou mal no geral;
  • já tiveste cancro, ou perdeste peso sem tentares;
  • a dor é pior à noite ou não muda nada quando te mexes ou descansas, é alta, entre as omoplatas, ou sentes uma perna fraca ou dormente.

Se uma crise nova não estiver a melhorar ao fim de algumas semanas, continuar a piorar ou te preocupar, consulta um médico. É o médico que decide se é preciso um exame. Se pedir um, faz: quer dizer que algo na tua história ou no exame físico merece ser visto com mais atenção.

Como ler as palavras de um relatório de exame

7. "Um disco saiu do lugar"

Podes ouvir que um disco saiu do lugar e tem de ser empurrado de volta. É uma mensagem popular. Num vídeo dobrado em espanhol do treinador de fitness Jeff Cavaliere, cujo canal ATHLEAN-X vende programas de treino, com mais de 5 milhões de visualizações, o disco aparece como algo a voltar a centrar em poucos passos e a resolver de vez (ATHLEAN-X Español). A investigação não sustenta essa imagem. Os discos estão presos no lugar, como diz Moseley, e os abaulamentos discais são comuns em pessoas sem nenhuma dor (passo 1). O mesmo vídeo, justiça lhe seja feita, nota que as ressonâncias mostram problemas nos discos em muitas pessoas sem sintomas.

Marcos Sacristán, fisioterapeuta em Espanha, responde ao mito relacionado de que a dor nas costas vem de "uma vértebra fora do sítio", um mito que Sacristán atribui a terapias manuais mal explicadas. "El dolor no depende de una vértebra fuera de su sitio" ("A dor não depende de uma vértebra fora do sítio"), diz Sacristán, e "tu columna es una estructura tremendamente estable" ("a tua coluna é uma estrutura tremendamente estável") (Fisioterapia a tu alcance, 6:02 e 6:26). Nada nas tuas costas precisa de ser posto no lugar.

8. "O disco está escuro e seco"

Podes ouvir que um disco escuro na ressonância está doente e precisa de ser reidratado. Num vídeo brasileiro com quase 3 milhões de visualizações, Kelwin Juan, fisioterapeuta que vende um programa de exercícios para fazer em casa, mostra um disco mais escuro num exame e recomenda um copo de água com sal por dia para o reidratar (Kelwin Juan, em português). Nada nas nossas fontes mostra que uma bebida mude um disco. E o próprio disco escuro, a perda de sinal do disco, foi encontrado em mais de metade das pessoas sem dor com mais de 40 anos na revisão de 2015 (Brinjikji et al., 2015). O vídeo acerta numa coisa perto do fim: mais movimento tende a andar com menos dor.

9. "Degeneração", "abaulamento", "desgaste"

São descrições do que o exame mostra, e as mesmas palavras aparecem em relatórios de pessoas sem dor. "Doença degenerativa do disco" soa a diagnóstico, mas na revisão de pessoas sem dor a degeneração discal era mais comum do que a sua ausência a partir dos 40 anos. Vê as palavras como uma imagem de uma coluna da tua idade e pergunta ao teu médico o que querem dizer para ti.

Quanto à última pergunta, as recomendações são consistentes: "Não esperes que a dor desapareça toda para começares a mexer-te" (ACSQHC, 2022). O conselho do NHS inform para problemas de costas também é claro: "Na maioria dos problemas de dor nas costas, normalmente não vais precisar de um raio-X nem de uma ressonância magnética", e "a maioria dos problemas deverá ter melhorado em 6 semanas" (NHS inform). Os nossos guias sobre o que fazer numa crise e dor lombar tratam dos dias entretanto, e levantar pesos com dor nas costas trata de dobrar-se.

De volta à coluna de plástico

O modelo de coluna de Moseley, com o disco muito fora do lugar, é uma imagem que muitas pessoas levam para casa depois de uma consulta. A investigação dá outra: as alterações nos discos são comuns com ou sem dor, um disco não desliza, e na maior parte da dor nas costas um exame não consegue encontrar uma única peça culpada. Um exame continua a ter a sua função, quando um médico precisa de excluir uma causa grave. Nas palavras de Moseley, o disco que saiu do lugar é "a nossa linguagem". Podes escolher outras palavras para as tuas costas.

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Perguntas frequentes

Preciso de uma ressonância magnética para a dor nas costas?

Normalmente não. As recomendações do Reino Unido e da Austrália desaconselham exames de rotina para a dor lombar e dizem que são precisos sobretudo quando um médico tem de excluir uma causa grave (NICE NG59; ACSQHC, 2022). Quem decide é o teu médico; se pedir um exame, faz.

Os abaulamentos discais são normais?

São comuns em pessoas sem dor nas costas: numa revisão de 33 estudos, encontraram-se abaulamentos discais em 30% das pessoas de 20 anos sem dor e em 84% das de 80 anos sem dor (Brinjikji et al., 2015). Abaixo dos 50 anos, um abaulamento é um pouco mais comum em pessoas com dor nas costas, por isso é lido em conjunto com o teu estado (Hartvigsen et al., 2018).

Um disco pode sair do lugar?

Não. Os discos estão presos no lugar entre as vértebras, e "um disco não desliza", como diz Lorimer Moseley (TEDxAdelaide, 10:49). "Disco que saiu do lugar" é a linguagem do dia a dia para achados como um abaulamento ou uma protrusão, que os exames também mostram em muitas pessoas sem dor.

Porque é que os médicos não pedem exames para a maior parte da dor nas costas?

Na maior parte da dor lombar, não é possível identificar uma causa única, os exames mostram muitas vezes alterações normais para a idade, e não há evidência de que os exames de imagem melhorem os resultados (Hartvigsen et al., 2018). A norma australiana acrescenta que saber dessas alterações pode preocupar-te e levar a exames e tratamentos que não ajudam.

E se o meu exame mostrar alguma coisa?

Pergunta ao teu médico o que o achado quer dizer para ti, se é comum na tua idade sem dor e o que fazer a seguir. Muitos achados, como a degeneração e os abaulamentos discais, são comuns em pessoas sem dor. Segue os conselhos do teu médico e consulta um médico rapidamente se aparecer algum sinal de alerta.

Fontes

Este artigo baseia-se na palestra TEDxAdelaide de Lorimer Moseley, em vídeos de Marcos Sacristán, Jeff Cavaliere e Kelwin Juan, e nos estudos e recomendações listados abaixo.

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